sexta-feira, 23 de maio de 2008

II – Da existência [?].
[“Os assassinos estão livres; nós não estamos.”]


1. Coletânea.

“A única coisa da qual não me isolo é a natureza saca? Sério, dessa eu não abro mão. É como se ela fosse a única coisa que me entendesse completamente, que não faz perguntas, que me abençoa com paz. Uma paz tipo: Somos a mesma coisa. E mesmo que nosso semblante seja completamente diferente, somos a mesma coisa, mesmo que ela seja sol, lua, árvore, montanha, pássaro, urubu, gato, girassol, orquídea, rosa, grama, vaca, e eu mulher, somos a mesma coisa. E eu não sei explicar a razão disso.”

“O que quero dizer é que esse mundo é maluco mesmo, que entre nós existe sim muita maldade e não só entre nós, mas em toda a natureza, porque ela assim o é: contraditória, paradoxal. Existe o feio, mas também existe o belo. Existe a sobrevivência, existe a vocação, existe o agreste, o selvagem, existe o oposto de tudo isso e muito mais. E tudo isso precisa existir. O homem não pode odiar a sua humanidade nem a si mesmo, nada que existe pode. Ele deve aceitar a sua condição, mesmo que não concorde com determinadas atitudes de seus semelhantes.
E diante de tudo isso, depois de pensar muito, decidi continuar seguindo a doutrina da natureza, aonde me enquadro e até mesmo ao naturalismo artístico e literário, realista, sem deixar de excluir, de forma alguma, todo e qualquer aspecto repugnante que provenha de toda e qualquer natureza, inclusive da minha, sem jamais esquecer-me, que diante de toda repugna que existe em nossa e em toda existência, o belo é tão maior e tão mais potente que me permite ao mesmo tempo em que como um temaki ou um sanduíche de peito de perú, fazer carinho no meu cachorro, me emocionar vendo o pôr do sol, chorar ao ver animais sendo mortos por suas peles, chorar ao saber que tem amigo meu perdido em beco atrás de cocaína, sem saber se ainda ta vivo ou morto, sorrir ao ver uma criança linda e contemplar tudo de belo que me rodeia - por mais que chore pelo feio...que existe tão e somente para aprendermos o dom da contemplação do belo.”


[Sobre “City of Angels” e “Der Himmel über Berlin”]:
“O que eu quero dizer com esses dois filmes é o que de comum eles têm; a beleza que os anjos enxergam em tudo que compreende a vida, já que não a possuem e a partir do momento que vivem, sabem viver melhor do que qualquer um de nós. E olha que eles conheciam bem as aflições dos homens, apesar de não poderem senti-las, já que liam os pensamentos. Porém imaginavam, e diante disso tinham uma vontade doentia de viver tudo aquilo. E viveram da melhor forma possível.

Diante disso, acho lamentável – nós, humanos. O dia que aprendermos a valorizar o “sabor de uma pêra”, um “corte” que seja, o dia que soubermos o valor de um mergulho no mar, de um banho quente demorado, da contemplação do pôr do sol e da contemplação em geral, seremos menos patéticos.

Hoje me sinto como um anjo que acabou de cair na terra, mas sei que assim como todos nós, já me senti aflitiva, vazia, melancólica, tediosa e tudo mais. Sei lá, é tudo tão contemplativo, único, quase explodo.É qualquer coisa como a resposta de Seth, quando seu amigo anjo lhe pergunta após a morte de Maggie, se ele tinha se arrependido de ter virado humano e então ele responde:-“I would rather have had one breath of her hair, one kiss from her mouth, one touch of her hand, than eternity without it. One.”

E então come pêras, sai correndo na praia e se joga no mar, contemplando a sensação do mergulho; contemplando toda a vida que lhe resta, tudo que viveu e que ainda viverá, com o sorriso mais verdadeiro do mundo: O sorriso de quem conheceu a dor, mas que por ela fazer parte da vida, tão perfeita, a ama. O sorriso de sentir, um sorriso de vida; um sorriso IMPAGÁVEL.”

“Os únicos momentos que valem a pena são os breves momentos do agora, temos a obrigação de torná-los os melhores possíveis, sermos inconseqüentes até o último fio de cabelo e esquecer completamente que a palavra culpa habita o dicionário. Ninguém pode fazer absolutamente nada por você e se fizer algo por alguém, não o faça por obrigação. Faça por sua vontade. Não precisamos de razões para fazermos o que temos vontade e eu bem sei que uma vontade é uma percepção extremamente complicada. Levantar da cama é difícil, mas apesar de todo o peso da liberdade, ainda posso dizer que as tequilas, as estradas, cantar com um amigo, qualquer espécie de pré-disposição, finalmente compreender um conceito, aumentar o seu saber, melhorar o feriado de um desconhecido e ante a tudo isso ainda conseguir sentir um sopro de contemplação através de tantas coisas abomináveis que nos rodeiam, ainda fazem essa empreitada valer a pena. - somehow and i don't know why.”


“Me digam que não somos todos idiotas, querendo sempre estar no controle de nós mesmos, mesmo que pra isso tenhamos que dizer o tempo todo o oposto. Ou ao menos, digam que somos humanos, que vivemos que sentimos. Que assim como Fernando Pessoa, todos estamos ‘FARTOS de semi-deuses’ e nos perguntamos: ‘Aonde é que existe gente neste mundo’?????
Cancela.”

Quem me dera ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter,
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer...

Quem me dera ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante.
Mas nos deram espelhos...
E vimos um mundo doente!”

[Legião Urbana – Índios].


2. Para a louca de pedra e para a monstra:

Rodeie. Desça até o fundo do poço a fim de descobrir tudo aquilo que você sempre soube, mas não se dava conta que sabia. Não fique com preguiça. No fim das contas é a mesma coisa, mas tudo muda. Você compreende – depois não mais, sem nunca ter deixado de compreender. Jamais será tempo perdido. Se perca, faça tudo que quiser. Chafurde na própria merda. Conheça os dois lados da moeda. Liberte-se. Enlouqueça. Quando achar que conseguiu, comece tudo de novo. Acredite, nada faz sentido e esse é o único sentido que vale a pena.
;*
 
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