segunda-feira, 31 de março de 2008

O livro do desassossego.
[Leiam o post caso tenham paciência hahaha]

[115]
Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

[114]
[...]
Penso às vezes no belo que seria poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. Mas teria tudo uma lógica soberba, sua; seria tudo segundo um ritmo de voluptuosa falsidade, passando tudo numa cidade feita da minha alma, perdida até [ao] cais à beira de um comboio calmo, muito longe dentro de mim, muito longe... E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior, mas estética de Morte do Sol.

[117]
[...]
Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as idéias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não “Tenho vontade de chorar”, que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: “Tenho vontade de lágrimas”. E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afetada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere resolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. “Tenho vontade de lágrimas”! [...]

Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido.

[123]
[...]
Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.

No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só – o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana – o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios – todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo... Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é em seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos.

Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

[124]
(Chapter on Indifference or something like that)

Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo.

Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é.
Viver a vida em Extremo significa vivê-la até ao limite, mas há três maneiras de o fazer, e a cada alma elevada compete escolher uma das maneiras. Pode viver-se a vida em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia exteriorizada. Raros, porém, são, em todas as épocas do mundo, os que podem fechar os olhos cheios do cansaço soma de todos os cansaços, os que possuíram tudo de todas as maneiras.

Raros podem assim exigir da vida, conseguindo-o, que ela se lhes entregue corpo e alma; sabendo não ser ciumentos dela por saber ter-lhe o amor inteiramente. Mas este deve ser, sem dúvida, o desejo de toda a alma elevada e forte. Quando essa alma, porém, verifica que lhe [é] impossível tal realização, que não tem forças para a conquista de todas as partes do Todo, tem dois outros caminhos que siga – um, a abdicação inteira, a abstenção formal, completa, relegando para a esfera da sensibilidade aquilo que não pode possuir integralmente na região da atividade e da energia. Mais vale supremamente não agir que agir inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera supérflua maioria inane dos homens; outro, o caminho do perfeito equilíbrio, a busca do Limite na Proporção Absoluta, por onde a ânsia de Extremo passa da vontade e da emoção para a Inteligência, sendo toda a ambição não de viver toda a vida, não de sentir toda a vida, mas de ordenar toda a vida, de a cumprir em Harmonia e Coordenação inteligente.

[...]
Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso.
Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.

Ps: Comecei pelo trecho 115, ao invés do 114 pois este post deve-se ao fato de um amigo ter lembrado-me dele. Eu já perdi a conta de quantas vezes li este livro, tenho tanta empatia por ele! Mas não o li ultimamente. O último livro que li foi um de crônicas do Woody Allen called “Cuca Fundida”...EXCELENTE. Eu sou MUITO fã do Woody Allen, não só como cineasta, ele é um dos poucos caras que me fazem rir lendo. Adoro o humor neurótico e melancólico e considero as tiradas filosóficas geniais. Agora finalmente me joguei no “Cem anos de Solidão”, mas ainda não passei do segundo capítulo, portanto ainda não tenho opinião.
Pessoas, não quero escrever sobre mim – ou sobre meus sentimentos ou sei lá o que acontece dentro de mim. Não estou nem perto de tomar um veneno letal, nem nada do tipo. Ao contrário, até que estou bem, se isto é possível. Mas ando tão confusa sobre tantas questões, como eu disse, algumas convicções minhas importantíssimas que, pra mim estão caindo abaixo. Abstenho-me, ainda. O máximo que posso fazer é dar dicas de bom livros, trechos, filmes e músicas hahaha.

Até a próxima amargura =D.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Escrevi no último post que EU não postaria mais nada MEU que eu não considerasse no mínimo decente, portanto não estou traindo-me.

Quero escrever sobre uma música. Ou sobre músicas. Ou sobre músicas geniais extremamente melancólicas e depressivas. Existem MUITAS delas. Quanto eu estou melancólica [o que é muito comum e eu detesto admitir isso, pois considero a melancolia algo ridiculamente "indie" ou pseudo-intelectual, whatever - eu existo antes de tudo isso aparecer], mas deixemos os rótulos de lado. Enfim, quando eu estou melancólica eu costumo escutar Placebo, Piaf e Legião desgraçadamente. Quando um amigo ou amiga vem em casa e abre o meu WMP, eles se chocam com o meu playlist, ficam indignados mesmo.

Mas hoje eu me dei conta da música mais melancólica, cética, anti-romântica, meudeusvoumemataragoramesmo, depressiva e tudo de ruim, porém obviamente lindaaa que já escutei e que tinha esquecido aqui no meio de tantas [acho que por ela ter banalizado tanto].


Essa música é tudo isso por uma única frase...a do final.


Diz assim:

I can't take my mind of you...
My mind...
My mind...
My mind...
''TILL I FOUND SOMEBODY NEW."

Vocês, em toda a sua existência já escutaram algo mais triste e mais REAL do que isto?



=/



http://www.youtube.com/watch?v=QSD4Id_oazM

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segunda-feira, 24 de março de 2008



Mestres de nossos atos e destinos.



Como sempre, continuo acreditando que escrever ainda é a melhor forma, ou ao menos, uma das melhores formas de libertar-nos nem que seja um pouquinho de nossos tormentos. Porém acho que tudo que é publicado, seja em livro, seja em jornal, seja na internet, até mesmo aqui no blog gera muita responsabilidade. E ando num momento extremamente confuso, nebuloso de minha vida, mas de certo sei que detesto esse tipo de responsabilidade - a de influir na vida de outrem. Acho isso aqui tão bonitinho, o rosa com o verdinho e tal, a fotinho da trapezista de “Asas do Desejo”, os trechos do meu livro e todos os desabafos amorosos enquanto eu ainda não havia me tornado finalmente [e infelizmente] uma cética crônica no amor e não só no amor, mas em muitas coisas. As citações das obras que li e amei [nem todas, mas as que combinavam com determinada situação], os trechos do Caio [principalmente os trechos do Caio], do Wilde [principalmente do Wilde], hedonistas sob algum paradoxo inexplicável [como todo paradoxo], enfim, aqui é a minha casinha. Mas não acredito que eu possa contribuir com algo agora. Talvez seja um caminho sem volta dos que perceberam que as mais belas ilusões não mais podem satisfazer nossos anseios quando todos os sentidos deixaram de existir – tudo em que você sempre acreditou. Os motivos que nos fazem levantar de manhã não são nossos esforços, muito menos nossos sonhos, ambições perdidas de uma vida completamente nonsense e inexistente. A única coisa que talvez valha a pena são os 5, 10, 3, 0.1 minutos, segundos horas de compreensão entre duas ou mais pessoas – momentos tão raros. Agradeço, sempre, aos que não me julgam, aos que me aceitam, aos que entendem que por trás de minhas ações, paranóias ou seja lá o que for eu não preciso de uma justificativa nem de nenhum plano mirabolante para absolutamente nada. E talvez a coisa que mais me deprima, ironicamente [por ser incongruente ao meu amor pelo existencialismo e pelo individualismo], são todos aqueles que escolheram não viver [me irritam e estou rodeada deles]. Eu não quero ser hipócrita. Sartre em seus belíssimos caminhos da liberdade, já sabia que quando um homem percebe que não existe razão absoluta para fazermos escolhas a fim de nos sentirmos livres e que um homem jamais será homem até encontrar uma razão pela qual morrer carregava exatamente o peso da incontestável liberdade a qual estaremos para sempre destinados. Em outros tempos considerei a liberdade a maior de todas as dádivas, talvez ainda assim seja, mas já não estou tão certa. Talvez não se trate de uma dádiva, mas de qualquer coisa de destino, sem maiores crenças espirituais, uma sina, não sei se má ou se boa. Uma pessoa nostálgica ou uma pessoa que aposta todas as suas fichas no futuro está perdida [talvez por este motivo eu seja tão extraviada há!!] pois sua vida encontra-se numa dimensão que não mais existe nem nunca existiu. Não sei mesmo se existe a “idade da razão”. Ela pode ser uma fraude, como quase tudo o mais. Os únicos momentos que valem a pena são os breves momentos do agora, temos a obrigação de torná-los os melhores possíveis, sermos inconseqüentes até o último fio de cabelo e esquecer completamente que a palavra culpa habita o dicionário. Ninguém pode fazer absolutamente nada por você e se fizer algo por alguém, não o faça por obrigação. Faça por sua vontade. Não precisamos de razões para fazermos o que temos vontade e eu bem sei que uma vontade é uma percepção extremamente complicada. Levantar da cama é difícil, mas apesar de todo o peso da liberdade, ainda posso dizer que as tequilas, as estradas, cantar com um amigo, qualquer espécie de pré-disposição, finalmente compreender um conceito, aumentar o seu saber, melhorar o feriado de um desconhecido e ante a tudo isso ainda conseguir sentir um sopro de contemplação através de tantas coisas abomináveis que nos rodeiam, ainda fazem essa empreitada valer a pena. - somehow and i don't know why. Porém, ainda continuo buscando [sem muita fé], uma razão pela qual eu morreria. Mas talvez e mais provavelmente, nada disso tenha sentido algum. E até ter alguma coisa NO MÍNIMO decente para passar a alguém, vou me abster de postar coisas aqui na casinha.


 
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