
[Vide entrada de 17 de outubro de 2007 – “A minha ficção.”]
Durante um tempo, Júlia se doía inteira quando se lembrava dele, não como um punhado no peito que já crava dilacerando tudo, acabando com tudo, mas como pequenos cortes, em toda parte, que vão aos poucos crescendo, inflamando, daqueles que quase não damos importância, não cuidamos, continuamos de pé, vivendo, correndo, ciscando sabe-se-lá atrás de quais migalhas, enquanto eles adoecem, aquela dor que irrita, aquela dor que não passa, aquela dor que a gente não cuida, aquela dor que a gente não deixa, aquela dor que a gente quase nem lembra, quase nem nota, mas que piora, piora, piora, até que um dia transforma-se numa chaga cancerígena. Passou a doer efetivamente. Moléstia. Miséria.
-As dores também podem ser bonitas, repetia ela – como quem não deseja a cura.
Em algum momento, implorou a alguma força oculta, caso ela existisse, que a fizesse esquecê-lo. Não suportava mais – se é que é possível deixar de suportar algo, quando se continua vivendo, compreende? Não, ela não suportava. Sabia que aquilo jamais teria fim. Aquela apatia na qual ela jamais acreditou. Conformismo talvez? Talvez. Triste, rigorosamente assim. Imagino que seja simples seguir em frente quando não esperamos mais nada, mas e quando de uma forma febril continuamos a crer? Desespero. Ela sabia que doía nele, ela sentia e não suportava.
Poderia dizer – e dizia a quem desejasse escutar que não se importava mais, que aquilo tinha sido o inferno, que seria melhor jamais tê-lo encontrado – ela mentia desgraçadamente, para si, para o mundo. Repetia que ele não podia ser para ela, que jamais seriam felizes juntos, que havia coisas nele que jamais suportaria – ela mesma na grande maioria do tempo já estava convencida de tudo isso. Não era verdade – humilde, ela sabia que precisava e que suportaria tudo. Ela não se movia. As madrugadas chegavam, qualquer coisa bonita, uma coisa qualquer como um garoto tímido, uma chuva fina, uma poesia, essas coisas todas lindas, que faziam ela lembrar dele. Sim, era amor o que ela sentia. Era curioso e novo porque ela não acreditava naquilo. E era ódio. Ela também não acreditava no ódio, mas sentia. E então ela rezava e pedia não para ficar com ele, mas que ele pudesse ser contente, que o nó fosse embora, o dela, o dele; que pudessem acreditar não sabia em quê, mas que pudessem dividir aquela solidão, que conseguissem viver, que pudessem sair daquela lama de morte, uma luz que cegasse aquela opressão, aquela limitação, aquela aflição, aquela agonia – era amor. Era ódio também porque era imenso; uma angústia - inalterável.
Era uma destas madrugadas, ela tinha lido qualquer coisa daquelas bem lindas e lembrou e doeu e pensou que talvez estivesse doendo nele também e então condoeu-se ainda mais. Era de uma firmeza medonha a tal sensação de reciprocidade. Ficou esperando algum sinal, ficou imaginando que talvez ele também não estivesse suportando, que o corpo dele também estivesse berrando, do que não ousou ser, das memórias, do que quase chegou a ser mas que não foi, e não foi porque não suportaram? Ou foi porque se acovardaram? Talvez porque em algum momento espantamo-nos quando encontramos aquela coisa, sem nome, sem estar procurando, mas que perseguimos, aquela coisa que promete trazer a gente de volta mas temos medo de voltar, de voltar pro eu perdido, pro sonho – firmamo-nos no pesadelo. Não há o que entender no âmbito da imbecilidade da lamentação das escolhas humanas. Hábito de vitimização, diriam os sensatos. Os mais eruditos apostariam: Sádicos.
Ela já não agüentava mais tanta culpa, dia após dia, procurando uma saída, algo, alguém, a fim de quem sabe, compensá-lo? Ela sabia que não era possível, as coisas não se repetem, não mais do que uma vez e eles já repetiam-se entre si – verossímeis. Tentativas frustradas as dela, que nunca se cumpriam e então ela sentia nojo de todas as coisas tangíveis – era infinitamente mais doce o sonho – o intocável. Mais real. Mais bonito.
-As dores também podem ser bonitas, repetia ela – como quem não deseja a cura.
Em algum momento, implorou a alguma força oculta, caso ela existisse, que a fizesse esquecê-lo. Não suportava mais – se é que é possível deixar de suportar algo, quando se continua vivendo, compreende? Não, ela não suportava. Sabia que aquilo jamais teria fim. Aquela apatia na qual ela jamais acreditou. Conformismo talvez? Talvez. Triste, rigorosamente assim. Imagino que seja simples seguir em frente quando não esperamos mais nada, mas e quando de uma forma febril continuamos a crer? Desespero. Ela sabia que doía nele, ela sentia e não suportava.
Poderia dizer – e dizia a quem desejasse escutar que não se importava mais, que aquilo tinha sido o inferno, que seria melhor jamais tê-lo encontrado – ela mentia desgraçadamente, para si, para o mundo. Repetia que ele não podia ser para ela, que jamais seriam felizes juntos, que havia coisas nele que jamais suportaria – ela mesma na grande maioria do tempo já estava convencida de tudo isso. Não era verdade – humilde, ela sabia que precisava e que suportaria tudo. Ela não se movia. As madrugadas chegavam, qualquer coisa bonita, uma coisa qualquer como um garoto tímido, uma chuva fina, uma poesia, essas coisas todas lindas, que faziam ela lembrar dele. Sim, era amor o que ela sentia. Era curioso e novo porque ela não acreditava naquilo. E era ódio. Ela também não acreditava no ódio, mas sentia. E então ela rezava e pedia não para ficar com ele, mas que ele pudesse ser contente, que o nó fosse embora, o dela, o dele; que pudessem acreditar não sabia em quê, mas que pudessem dividir aquela solidão, que conseguissem viver, que pudessem sair daquela lama de morte, uma luz que cegasse aquela opressão, aquela limitação, aquela aflição, aquela agonia – era amor. Era ódio também porque era imenso; uma angústia - inalterável.
Era uma destas madrugadas, ela tinha lido qualquer coisa daquelas bem lindas e lembrou e doeu e pensou que talvez estivesse doendo nele também e então condoeu-se ainda mais. Era de uma firmeza medonha a tal sensação de reciprocidade. Ficou esperando algum sinal, ficou imaginando que talvez ele também não estivesse suportando, que o corpo dele também estivesse berrando, do que não ousou ser, das memórias, do que quase chegou a ser mas que não foi, e não foi porque não suportaram? Ou foi porque se acovardaram? Talvez porque em algum momento espantamo-nos quando encontramos aquela coisa, sem nome, sem estar procurando, mas que perseguimos, aquela coisa que promete trazer a gente de volta mas temos medo de voltar, de voltar pro eu perdido, pro sonho – firmamo-nos no pesadelo. Não há o que entender no âmbito da imbecilidade da lamentação das escolhas humanas. Hábito de vitimização, diriam os sensatos. Os mais eruditos apostariam: Sádicos.
Ela já não agüentava mais tanta culpa, dia após dia, procurando uma saída, algo, alguém, a fim de quem sabe, compensá-lo? Ela sabia que não era possível, as coisas não se repetem, não mais do que uma vez e eles já repetiam-se entre si – verossímeis. Tentativas frustradas as dela, que nunca se cumpriam e então ela sentia nojo de todas as coisas tangíveis – era infinitamente mais doce o sonho – o intocável. Mais real. Mais bonito.


