Meio Rococó.
Não adianta que não vou conseguir recordar o nome do filme. Eu já tentei. Era um filme antigo em branco e preto. Já faz mais de quinze anos que eu assisti – estava passando na TV e parei porque a cena me chamou muito a atenção. Lembro-me de ter ficado horrorizada. Era uma mulher, com insônia. Cansada de rolar na cama, ela levantava, se arrumava, sentava na frente do espelho, se maquiava, acendia o cigarro. Depois começava a conversar com o espelho, como se ele fosse um homem, e logo depois começou a paquerar o espelho. De repente, sem mais nem menos, simula uma briga com o espelho. Pega uma coisa qualquer que estava em cima da mesa e joga no espelho. O espelho quebra. Então aparece a imagem daquela mulher no espelho quebrado, completamente desequilibrada, chorando, com a maquiagem toda borrada...medonha. A maluca resolveu tomar banho e depois foi pra sala assistir um filme de romance. Teve um acesso de gula, enfiou goela abaixo um bolo inteirinho de chocolate praticamente de uma vez só, melecou a cara inteira de bolo, enquanto chorava desesperadamente na frente da televisão. Do nada, levantou, saiu correndo e foi no banheiro vomitar tudo. No dia seguinte ela acordou completamente feliz e foi trabalhar como se nada tivesse acontecido.
Já faz algum tempo que essa cena não sai da minha cabeça. Até comentei com um amigo esses dias.
Alguém ainda duvida que a vida imita a arte?
Isto me lembrou outra conversa, que me lembrou um conto do Caio. Estava pensando no Caio, sei lá, quanto mais me aprofundo nas informações, mais chego à conclusão de que ele era tão bipolar, esquizofrênico e sabe-se-lá quais mais patologias mentais, quanto eu. Um dia ainda tento formular melhor o que quero dizer sobre nossos comportamentos e sensações. Ainda não consigo. Enfim, contei tudo isso pra escrever um trechinho de “Creme de Alface”...
“...biônica atômica supersônica eletrônica – catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo um fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda nua subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre, por dentro, por fora.”
Amanhã isto muda.
Mas de qualquer forma, entre poços e jardins, entre o sempre e o nunca, entre todos os meus “eus”, você fica. E não desisto.
Ps: Íris, escrevi uma coisa sobre nós duas. Fui tão dura, toda vez que leio me dá uma coisa ruim. Prometo que posto, num dia qualquer de revolta.
Já faz algum tempo que essa cena não sai da minha cabeça. Até comentei com um amigo esses dias.
Alguém ainda duvida que a vida imita a arte?
Isto me lembrou outra conversa, que me lembrou um conto do Caio. Estava pensando no Caio, sei lá, quanto mais me aprofundo nas informações, mais chego à conclusão de que ele era tão bipolar, esquizofrênico e sabe-se-lá quais mais patologias mentais, quanto eu. Um dia ainda tento formular melhor o que quero dizer sobre nossos comportamentos e sensações. Ainda não consigo. Enfim, contei tudo isso pra escrever um trechinho de “Creme de Alface”...
“...biônica atômica supersônica eletrônica – catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo um fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda nua subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre, por dentro, por fora.”
Amanhã isto muda.
Mas de qualquer forma, entre poços e jardins, entre o sempre e o nunca, entre todos os meus “eus”, você fica. E não desisto.
Ps: Íris, escrevi uma coisa sobre nós duas. Fui tão dura, toda vez que leio me dá uma coisa ruim. Prometo que posto, num dia qualquer de revolta.


