terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Meio Rococó.



Não adianta que não vou conseguir recordar o nome do filme. Eu já tentei. Era um filme antigo em branco e preto. Já faz mais de quinze anos que eu assisti – estava passando na TV e parei porque a cena me chamou muito a atenção. Lembro-me de ter ficado horrorizada. Era uma mulher, com insônia. Cansada de rolar na cama, ela levantava, se arrumava, sentava na frente do espelho, se maquiava, acendia o cigarro. Depois começava a conversar com o espelho, como se ele fosse um homem, e logo depois começou a paquerar o espelho. De repente, sem mais nem menos, simula uma briga com o espelho. Pega uma coisa qualquer que estava em cima da mesa e joga no espelho. O espelho quebra. Então aparece a imagem daquela mulher no espelho quebrado, completamente desequilibrada, chorando, com a maquiagem toda borrada...medonha. A maluca resolveu tomar banho e depois foi pra sala assistir um filme de romance. Teve um acesso de gula, enfiou goela abaixo um bolo inteirinho de chocolate praticamente de uma vez só, melecou a cara inteira de bolo, enquanto chorava desesperadamente na frente da televisão. Do nada, levantou, saiu correndo e foi no banheiro vomitar tudo. No dia seguinte ela acordou completamente feliz e foi trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Já faz algum tempo que essa cena não sai da minha cabeça. Até comentei com um amigo esses dias.
Alguém ainda duvida que a vida imita a arte?

Isto me lembrou outra conversa, que me lembrou um conto do Caio. Estava pensando no Caio, sei lá, quanto mais me aprofundo nas informações, mais chego à conclusão de que ele era tão bipolar, esquizofrênico e sabe-se-lá quais mais patologias mentais, quanto eu. Um dia ainda tento formular melhor o que quero dizer sobre nossos comportamentos e sensações. Ainda não consigo. Enfim, contei tudo isso pra escrever um trechinho de “Creme de Alface”...

“...biônica atômica supersônica eletrônica – catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo um fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda nua subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre, por dentro, por fora.”

Amanhã isto muda.
Mas de qualquer forma, entre poços e jardins, entre o sempre e o nunca, entre todos os meus “eus”, você fica. E não desisto.


Ps: Íris, escrevi uma coisa sobre nós duas. Fui tão dura, toda vez que leio me dá uma coisa ruim. Prometo que posto, num dia qualquer de revolta.

 
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