quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

E durante todo esse tempo Dean estava excitadíssimo com tudo que via, com tudo que falava, com cada detalhe de cada instante que havia se passado. Estava fora de si com uma fé autêntica. “É claro que agora ninguém mais terá coragem de nos dizer que Deus não existe. Passamos por todo tipo de coisa. Você lembra Sal, quando apareci em Nova York pela primeira vez e queria que Chad King me ensinasse tudo sobre Nietzsche? Vê quanto tempo já se passou desde lá. Tudo está numa ótima, Deus existe, nós captamos o espírito da nossa época. Desde os gregos, tudo tem se firmado sobre bases falsas. Você não pode desbundar com essa geometria e esses sistemas geométricos de pensar. É isso aí.” Ele envolveu os pulsos com os dedos; o carro se manteve sobre a lista branca, preciso e no prumo. “E não apenas isso, mas nós dois concordamos que eu tenho tempo suficiente para explicar por que sei e você também sabe que Deus existe.” Em determinado momento resmunguei sobre os problemas da vida – o quão pobre minha família era, como eu gostaria de poder ajudar Lucille, que também era pobre e tinha uma filha. “Problema é a palavra-chave pela qual Deus existe. O negócio é não esquentar a cabeça. Minha cuca ta zumbindo.”, gritou ele, dando um safanão na cabeça. Saltou do carro como Groucho Marx, para comprar cigarros – com aquele mesmo passo furioso e rente ao chão e as abas esvoaçantes da casaca, com a diferença que Dean não usava casaca. “Desde Denver, Sal, um monte de coisas – oh, tantas coisas – tenho pensado e pensado. Passei o tempo todo nos reformatórios, era um delinqüente juvenil que queria se afirmar – roubando carros, um sintoma perfeito dessa situação, tá na cara. Agora todas as minhas broncas com a prisão já estão superadas. Tanto quanto consigo imaginar, jamais serei preso outra vez. O resto não é culpa minha.” Passamos por um menininho que estava jogando pedras nos carros que cruzavam as estradas. “Pense nisso”, disse Dean. “Um dia ele vai quebrar o pára-brisa de alguém e o cara vai bater e morrer – tudo por causa deste garotinho. Ta percebendo o que eu quero dizer? Deus existe e não tem remorso. Enquanto a gente roda nessa estrada, não tenho a menor dúvida de que algo esteja tomando conta de nós mesmo com você temeroso ao volante”...

...”A paz virá de repente, a gente não vai nem compreender quando acontecer – percebe, cara?”
[On the road]


Iris: I understand feeling as small and as insignificant as humanly possible. And how it can actually ache in places you didn't know you had inside you. And it doesn't matter how many new haircuts you get, or gyms you join, or how many glasses of chardonnay you drink with your girlfriends... you still go to bed every night going over every detail and wonder what you did wrong or how you could have misunderstood. And how in the hell for that brief moment you could think that you were that happy. And sometimes you can even convince yourself that he'll see the light and show up at your door. And after all that, however long all that may be, you'll go somewhere new. And you'll meet people who make you feel worthwhile again. And little pieces of your soul will finally come back. And all that fuzzy stuff, those years of your life that you wasted, that will eventually begin to fade.

… It's over. This - This twisted, toxic THING between us, is finally finished! I'm miraculously done being in love with you! Ha! I've got a life to start living.
[The Holiday]

It’s amazing/ With a blink of an eye you finally see the light.
[Aerosmith – Amazing.]


=D.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Quase 27 anos e um metro e setenta e dois de pura solidão forçada.



Thata: Por favor, fica calma. Mas eu não entendo a razão de você ficar aí, parada.
Tinha: Eu estou calma e não vou fazer nada, não é assim o meu sonho, não é assim...entenda que as vezes as coisas só podem durar sendo sonhos, que não podemos destruir assim fácil aquilo que apesar de nos destruir, nos alimenta, quando é praticamente a única coisa que nos resta, não pode ser de qualquer jeito.
Thata: Mas você tem que se mexer, você quer ter o sonho né? O real é chato.
Tinha: Não, eu quero uma realidade de sonho, mas se for pra ter uma realidade qualquer, banal, podre, comum, ordinária, eu prefiro ficar só com o sonho mesmo.
Thata: Tá certo, porque toda realidade é meio bosta né? Eu estou com saudades de você, comi omelete de banana e você não estava aqui. Depois tomei café e você não estava aqui =/. Dá pra vir logo morar aqui?
Tinha: Não, eu não acredito nisso, talvez seja exatamente este o meu problema...pq eu não acredito nessa vida que as pessoas vivem, essa vida conformada, essa vida morna, eu quero mais, eu sou mais, eu vou ter mais, eu tenho que ter mais, eu tenho que ter uma realidade fantástica. Também estou morrendo de saudades e vou logo mais, estou com preguiça de me mexer hahaha.
Thata: É por isso que eu ralo muito esta minha bunda, porque não quero uma bolsa qualquer, eu quero Prada.
Tinha: Você é doente. Mas sabe, se minha vida não parece estar saindo de uma tela de cinema, me sinto péssima.
Thata: Eu também acho isso, eu sou a Paris Hilton hahaha e daqui a pouco vou ser a Housewife hahahahaha
Tinha: A Paris Hilton é péssima. Eu quero Love Story, sem o câncer no final ou Thelma e Louise hahaha
Thata: A não, nem vem que Thelma e Louise é você e a Íris e não eu, e no final, vocês morrem. Se foder viu, agora esta vaca está sozinha e quer roubar minha mulher hahaha
Tinha: Patricinhas de Bervelly Hills então uhahuahuauhahauhauahuhuaahua. Vou ser a Alicia Silverstone, torrar o cartão de crédito com dor de cotovelo ao som de “all by myself”...a minha cara, não é?
Thata: huauhahuauhaahuauhauhauhauhauhuhauhauhauha....



Quanto mais idosa fico, mais corro pro isolamento, ao contrário de minha vontade. Hipócrita, talvez.





When I was young
I never needed anyone
And making love was just for fun
Those days are gone



Livin' alone
I think of all the friends I've known
When I dial the telephone
Nobody's home



All by myself
Don't wanna be
All by myself
Anymore



Hard to be sure
Sometimes I feel so insecure
And loves so distant and obscure
Remains the cure



All by myself
Don't wanna be
All by myself
Anymore
All by myself
Don't wanna live
All by myself
Anymore



When I was young
I never needed anyone
Making love was just for fun
Those days are gone



All by myself
Don't wanna be
All by myself
Anymore
All by myself
Don't wanna live
Oh
Don't wanna live
By myself, by myself
Anymore
By myself
Anymore
Oh
All by myself
Don't wanna live
I never, never, never
Needed anyone.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008



"Quem te trouxe dessa quase morte para um lugar que é a própria antecipação da morte tu que pareces para sempre imobilizado nessa postura que não é tua porque não te imagino assim abandonado entre lençóis mas em constante movimento tu que fazes dessa ausência de movimentos de agora a tua enorme e falsa fragilidade?


[...]— mas o que chamas de paz se pressinto em ti essa coisa mansa que se faz nos outros e em cada momento que te olho inúmeras coisas escuras escorrem dentro de mim pois se a paz não é uma coisa escura pois senão não continuarei não te farei nenhuma pergunta embora precisasse não para te definir ou para te compreender não preciso saber de onde vens assim como para me definires ou me compreenderes não precisas de nenhum dado concreto mas eu não te defino nem te compreendo apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenidades que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admiro precariedades por que não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto ainda que tudo isso seja um lento processo de morte um enveredar em direção ao mais terrível vejo em ti o meu roteiro de agonia além disso nada sei mas não fujo foram muito poucas as coisas que vivi percebo que não cheguei a existir exatamente mas não sou forte apenas construí de minhas fraquezas essa coisa que talvez chamasses força há muito tempo eu permanecia esquecido de mim mesmo foi preciso que chegasses para eu perceber que somente destruindo se pode construir agora eu quero a destruição que me propões mas não propões nada deixas que eu enverede sozinho é assim sei que não me deixarás sozinho sei que te recusas a te definires em palavras não por que eu me atemorizasse mas por que as palavras não te dizem temos muito pouco tempo nesse pouco tempo é preciso que todos percebam em ti o que nunca viram e somente no último momento possam ver a tua face essa face terrível que todos suspeitam terrível mas eu reivindico a posse desse terrível porque me sei capaz de suportá-lo não falta muito tempo agradeço por me teres dado a consciência da minha inutilidade mas eu de nada sei nada conheço do que falo mesmo assim estou pronto embora sem compreender inteiramente sim semearemos a fome e a discórdia semearemos o que eles não seriam capazes de viver se não chegasses não me esquivarei vejo a tua mão estendida em direção a mim e estendo a minha própria mão e minha mão e tua mão se tocam e a minha espera e a tua conduz sim preparo-me para o grande mergulho no desconhecido:

— antes que tentes aviso já te disse tudo não sou nada além de meu nome meu nome é minha essência mais profunda assim como a tua talvez seja a que vivas no momento talvez nada sejas além destas paredes descascadas destes móveis poucos esta bacia de louça naquele canto mas não te julgo pelo que vejo em ti externamente não julgo a ninguém nem a mim mesmo vim duma coisa que ainda não conheces vim duma coisa enorme da escuridão e de luz mais absolutas que possas imaginar a um só tempo vim duma coisa sem medo mas não sabes que trago em mim o princípio e o fim de todas as coisas sabes por ventura que te farei meu cúmplice e despertarei teu ódio esse ódio calado que consome as vísceras por que de todos és o único que sabes da absoluta inutilidadede todas as coisas e sabes dessa vontade incontida de ser maior que todas essas coisas sabes dessa vontade amarga no peito de cada um e esquecida durante a trivialidade sabes de tudo isso e por saberes é que te escolhi te digo que o acaso não existe e que aconteci no momento exato em que não suportavas mais embora não soubesses da tua exaustão é preciso que as coisas se intercalem exatamente como está sendo feito esses momentos de luz aparentemente banais é preciso essa linearidade para que subterraneamente escorra um fluxo intenso e te digo que subitamente os homens enlouquecerão e perpetrarão o que jamais seriam capazes de perpetrar te digo dessa loucura tão próxima te digo da proximidade de tua própria destruição e sei que não temes porque eu não te escolheria se não soubesse embora saiba que temerás no momento exato e que mais tarde julgarás que foste fraco mas eu te digo ainda que todas as coisas estão sendo feitas e que não podes fugir delas porque a partir do momento em que alguém é escolhido faz-se necessário assumir essa escolha os temores não serão infundados nem mesmo esses obscuros pressentimentos que te assaltam é preciso que alguém faça penditar a ordem das coisas por que essa ordem permane cena inabalável se não houvesse a minha chegada pois quem provou do ódio desejará provar coisas cada vez mais intensas e o mais intenso que o ódio só pode ser essa região sombria à qual os homens deram um nome mas esses de nada sabem mesmo tu de nada sabes eu vim dessa região para semear a fome e a discórdia e não preciso te convencer de nada quero apenas que te deixes conduzir toma a minha mão e vê como ela é leve toma da minha mão e pensa nos lugares para onde te levarei nesta noite de quase dezembro e agora prepara-te para o grande mergulho no desconhecido."


[O afogado].



Aff.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


"Erst em Ende unseres Weges stehen die Antworten." - Laotse.

Era isso que dizia o cartão-postal que você me mandou da Alemanha. Achei ele ontem aqui e chorei pra variar. Já tratei de deletar aquela coisa medonha que eu tinha escrito sobre o rumo de nossas vidas.

Coisa mais linda, o que você escreveu:

"Bi, no cartão diz que no final dos nossos caminhos, estão as respostas. Mas, eu espero ter perguntas pro resto da vida. Our road trips will last our lifetimes? Who need answers when you got friends?"

Respondo-te com Guimarães Rosa:

"Amigo? Aí foi isso o que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."
[Grande Sertão: Veredas.]

;]

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008


“I was staring out the window/ The whole time he was talking to me/ It was a filthy pane of glass/I couldn't get a clear view.”
Fiona Apple, “Window”.


Foi estranho quando eles me contaram. Não que eu não soubesse, mas tive aquele tipo de certeza paupável. A diferença entre o sonho e a realidade sabe? Como se não fossem exatamente a mesma coisa. Como se todas aquelas vezes em que tua voz me chamava de dentro de mim, eu fingisse não escutar e não responder algo como: -Estou te vendo e sabes que tua ausência me dói. Eu disse fingir? Eu não queria falar sobre fingimentos.

No começo senti uma felicidade – achei que fosse. Fiquei horas em estado de graça achando que tudo estava resolvido. Os fingimentos. Não os nossos, os deles. Aquela mania que eles tinham. Aquela inveja. Aquela coisa porca. Você lembra de todos aqueles olhares maquiavélicos tentando separar a gente? Todo dia eu acordava, abria a janela e você estava lá fora me esperando. Mas eles não deixavam, acho que você sabia, eu não. Alguns me distraíam. Eles me tiravam da janela, dizendo que o jardim estava morrendo. Eu não podia deixar o jardim morrer. Você sabia que aquele jardim era seu? Outros iam até lá fora lhe dizer que eu não gostava, que eu não queria e que eu não precisava de você. Você precisa saber que eu estava cuidando do seu jardim. Eles estão arrependidos.

Era isso que eu achava, quando eles me contaram. Você confiou tanto neles. Desacreditou tanto em mim. Depois eu acordei com muita raiva – energia, pensei comigo. Era ódio. De todos eles. Você não estava mais do outro lado da janela. Eles vieram me dizer que eu matei o jardim. Eles disseram exatamente assim: - Ele-te-deu-todas-as-sementes-e-toda-a-água-mas-você-pisou-em-todas-as-flores-e-você-matou-o-jardim. Eles queriam que você acreditasse que a culpa era minha e não deles. Não era arrepedimento.

Só queriam matar-me mais uma vez, ao contar que era verdade, que você me amava. Como se ainda houvesse tempo, como se ainda fosse possível.
Meio Rococó.



Não adianta que não vou conseguir recordar o nome do filme. Eu já tentei. Era um filme antigo em branco e preto. Já faz mais de quinze anos que eu assisti – estava passando na TV e parei porque a cena me chamou muito a atenção. Lembro-me de ter ficado horrorizada. Era uma mulher, com insônia. Cansada de rolar na cama, ela levantava, se arrumava, sentava na frente do espelho, se maquiava, acendia o cigarro. Depois começava a conversar com o espelho, como se ele fosse um homem, e logo depois começou a paquerar o espelho. De repente, sem mais nem menos, simula uma briga com o espelho. Pega uma coisa qualquer que estava em cima da mesa e joga no espelho. O espelho quebra. Então aparece a imagem daquela mulher no espelho quebrado, completamente desequilibrada, chorando, com a maquiagem toda borrada...medonha. A maluca resolveu tomar banho e depois foi pra sala assistir um filme de romance. Teve um acesso de gula, enfiou goela abaixo um bolo inteirinho de chocolate praticamente de uma vez só, melecou a cara inteira de bolo, enquanto chorava desesperadamente na frente da televisão. Do nada, levantou, saiu correndo e foi no banheiro vomitar tudo. No dia seguinte ela acordou completamente feliz e foi trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Já faz algum tempo que essa cena não sai da minha cabeça. Até comentei com um amigo esses dias.
Alguém ainda duvida que a vida imita a arte?

Isto me lembrou outra conversa, que me lembrou um conto do Caio. Estava pensando no Caio, sei lá, quanto mais me aprofundo nas informações, mais chego à conclusão de que ele era tão bipolar, esquizofrênico e sabe-se-lá quais mais patologias mentais, quanto eu. Um dia ainda tento formular melhor o que quero dizer sobre nossos comportamentos e sensações. Ainda não consigo. Enfim, contei tudo isso pra escrever um trechinho de “Creme de Alface”...

“...biônica atômica supersônica eletrônica – catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo um fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda nua subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre, por dentro, por fora.”

Amanhã isto muda.
Mas de qualquer forma, entre poços e jardins, entre o sempre e o nunca, entre todos os meus “eus”, você fica. E não desisto.


Ps: Íris, escrevi uma coisa sobre nós duas. Fui tão dura, toda vez que leio me dá uma coisa ruim. Prometo que posto, num dia qualquer de revolta.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Gostaria de não ter essa necessidade enfadonha de entender e conhecer tudo. De saber a verdade...de tudo. Já tinha decidido deixar para trás este hábito horroroso, afinal de contas, sou a primeira a enganar-me o tempo todo. Ou não, quem sabe? É de enlouquecer. Não que seja falta de sinceridade, é falta-de-conhecimento-da-verdade. Ou seria falta-de-existência-da-verdade? Há quem diga que o que importa são as nossas verdades e eu não discordo. Mas e quando não se tem verdades? Eu posso ser uma sofista e ninguém nem sequer desconfiar. Meu silêncio pode dizer muito mais verdades que todos os meus discursos. Da mesma forma, meu silêncio pode significar absolutamente nada. Ninguém nunca vai saber. E eu nunca vou saber de ninguém. Não é falta de retidão. É a vicissitude das coisas. Não estou dizendo que tornei-me uma pessimista ou coisa do tipo, alguma espécie de pseudo-sofredora que não confia mais em ninguém, nem em si mesma. Eu acredito no que eu sinto.


...Mas e quando não se sabe o que sente? Quando os sentidos não apontam para nenhum lado?

Há alguns meses postei um poema do Bukowski [e estou com preguiça de procurar a data], depois fiz uma anotação logo abaixo, algo parecido com “Como foi que me meti nesta arapuca?”. Estava referindo-me justamente à isto. Não sobre verdades e mentiras, gritos ou silêncios, mas sobre todo esse meu questionamento sem fim das coisas, sobre essa falta de paz mental. Será impossível ficar meia hora com a mente lavada? Será impossível compreender alguma coisa e parar de viver no lamaçal de incompreensão de absolutamente TUDO?

E eu juro que estou contente, mas sinto-me na grande maioria do tempo, muito, muito cansada. E não é um cansaço que férias resolvam. É um cansaço que vai me perseguir até em Honolulu.


“As diversas partes vivem suas vidas separadas, elas se tocam, seus caminhos se cruzam, combinam-se um instante para criar o que parece uma harmonia final e perfeita, mas somente para tornarem a separar-se mais uma vez. Cada uma é sempre só, separada e indivisível. ‘Eu sou eu’, afirma o violino; ‘o mundo gira em torno de mim’, insiste a flauta. E todos igualmente têm razão e igualmente se enganam; e nenhum deles quer escutar os outros.”

[Huxley – Contraponto.]

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Todos conseguiam sair daquele poço fundo, menos ela. Certo dia lembrou da amiga vã que dizia ter tido uma visão. Visualizou-se velha, com netos, cheia de jóias, solitária, infeliz, desesperada, gritando feito louca, chamando sua grande paixão. A tal visão foi uma espécie de libertação. Júlia lembrou-se porque também teve um desses lapsos de lucidez. Finalmente conseguiu compreender que tudo aquilo era muito doentio. Se é que o amor e o ódio realmente existem, estes não podem ser solitários. Haveriam de ser compartilhados. Percebeu que nunca tivera vontade de dividir seus sentimentos, nem de mostrá-los. Ela não sentia por ninguém a não ser por ela mesma, compreende? Ela olhava para um espelho imaginário. Mas ele se quebrou...

- Eu não acredito na solidão, não é natural. E não acredito nas semelhanças. Só é possível reconhecer-se em outra pessoa através das diferenças, para, quem sabe, desta forma, suprir a lacuna que nos falta.

[A história estava engavetada aqui. Resolvi dar uma lida. Sei lá, é engraçado. Escrever sobre o que não gostamos. O certo seria uma história beatnik ou coisa do gênero. Nunca imaginei que fosse capaz de criar uma personagem tão absurdamente neurótica-pseudo/tudo-abominável-e-mala. Vou espatifar a cara dela no asfalto igual Clarice fez com Macabéa.]

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008



[Vide entrada de 17 de outubro de 2007 – “A minha ficção.”]



Durante um tempo, Júlia se doía inteira quando se lembrava dele, não como um punhado no peito que já crava dilacerando tudo, acabando com tudo, mas como pequenos cortes, em toda parte, que vão aos poucos crescendo, inflamando, daqueles que quase não damos importância, não cuidamos, continuamos de pé, vivendo, correndo, ciscando sabe-se-lá atrás de quais migalhas, enquanto eles adoecem, aquela dor que irrita, aquela dor que não passa, aquela dor que a gente não cuida, aquela dor que a gente não deixa, aquela dor que a gente quase nem lembra, quase nem nota, mas que piora, piora, piora, até que um dia transforma-se numa chaga cancerígena. Passou a doer efetivamente. Moléstia. Miséria.

-As dores também podem ser bonitas, repetia ela – como quem não deseja a cura.

Em algum momento, implorou a alguma força oculta, caso ela existisse, que a fizesse esquecê-lo. Não suportava mais – se é que é possível deixar de suportar algo, quando se continua vivendo, compreende? Não, ela não suportava. Sabia que aquilo jamais teria fim. Aquela apatia na qual ela jamais acreditou. Conformismo talvez? Talvez. Triste, rigorosamente assim. Imagino que seja simples seguir em frente quando não esperamos mais nada, mas e quando de uma forma febril continuamos a crer? Desespero. Ela sabia que doía nele, ela sentia e não suportava.
Poderia dizer – e dizia a quem desejasse escutar que não se importava mais, que aquilo tinha sido o inferno, que seria melhor jamais tê-lo encontrado – ela mentia desgraçadamente, para si, para o mundo. Repetia que ele não podia ser para ela, que jamais seriam felizes juntos, que havia coisas nele que jamais suportaria – ela mesma na grande maioria do tempo já estava convencida de tudo isso. Não era verdade – humilde, ela sabia que precisava e que suportaria tudo. Ela não se movia. As madrugadas chegavam, qualquer coisa bonita, uma coisa qualquer como um garoto tímido, uma chuva fina, uma poesia, essas coisas todas lindas, que faziam ela lembrar dele. Sim, era amor o que ela sentia. Era curioso e novo porque ela não acreditava naquilo. E era ódio. Ela também não acreditava no ódio, mas sentia. E então ela rezava e pedia não para ficar com ele, mas que ele pudesse ser contente, que o nó fosse embora, o dela, o dele; que pudessem acreditar não sabia em quê, mas que pudessem dividir aquela solidão, que conseguissem viver, que pudessem sair daquela lama de morte, uma luz que cegasse aquela opressão, aquela limitação, aquela aflição, aquela agonia – era amor. Era ódio também porque era imenso; uma angústia - inalterável.
Era uma destas madrugadas, ela tinha lido qualquer coisa daquelas bem lindas e lembrou e doeu e pensou que talvez estivesse doendo nele também e então condoeu-se ainda mais. Era de uma firmeza medonha a tal sensação de reciprocidade. Ficou esperando algum sinal, ficou imaginando que talvez ele também não estivesse suportando, que o corpo dele também estivesse berrando, do que não ousou ser, das memórias, do que quase chegou a ser mas que não foi, e não foi porque não suportaram? Ou foi porque se acovardaram? Talvez porque em algum momento espantamo-nos quando encontramos aquela coisa, sem nome, sem estar procurando, mas que perseguimos, aquela coisa que promete trazer a gente de volta mas temos medo de voltar, de voltar pro eu perdido, pro sonho – firmamo-nos no pesadelo. Não há o que entender no âmbito da imbecilidade da lamentação das escolhas humanas. Hábito de vitimização, diriam os sensatos. Os mais eruditos apostariam: Sádicos.
Ela já não agüentava mais tanta culpa, dia após dia, procurando uma saída, algo, alguém, a fim de quem sabe, compensá-lo? Ela sabia que não era possível, as coisas não se repetem, não mais do que uma vez e eles já repetiam-se entre si – verossímeis. Tentativas frustradas as dela, que nunca se cumpriam e então ela sentia nojo de todas as coisas tangíveis – era infinitamente mais doce o sonho – o intocável. Mais real. Mais bonito.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Eu tenho medo de dizer e até de escrever coisas muitas vezes - as pessoas sempre levam para o lado pessoal, e eu machuco, machuco, sem querer...talvez por isso tenha aprendido a me calar. Até a sua palavra mais nobre pode machucar. Maldita incompreensão e eu detesto ficar batendo nesta mesma tecla, sempre. Na tecla da incompreensão e do individualismo – que na minha concepção, este último soa como o oposto do egocentrismo. As pessoas deveriam entender que nossos sentimentos são NOSSOS. Que nossos amores, paixões, angústias, medos, ódios, raivas e tudo mais, pertencem só a nós mesmos, bem como crescem em nós, vivem em nós – independente de tudo. Insisto - independente de tudo.
Entendam, vocês todos podem sim me fazer melhor ou pior, mas no momento em que eu parar cinco minutos para olhar dentro, a coisa vai estar sempre aqui e vocês nada têm a ver com isso. Estou cansada de machucar as pessoas, seja por atos, por palavras ou mesmo por silêncios.

"...para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Foi de repente que o cigarro queimou os cabelos dele. Levantamos os olhos, nos encaramos tensos, quase em ódio, quase em amor, naquela repressão à beira de alguma coisa que poderia conduzir a qualquer gesto, mesmo ao homicídio. Mas sorrimos, e foi depois que tudo quebrou. Jamais voltamos à entrega mesma de antes e à ausência de solicitações e à aceitação sem barreiras. Foi de um de nós que partiu a morte, ou ela já nascia involuntária como a madrugada por trás dos vidros?
[...]Amassa várias folhas de papel, joga-as no chão, gesto brusco. Você sabe que vai ser sempre assim. Que essa queda não é a última. Que muitas vezes você vai cair e hesitar no levantar-se, até uma próxima queda. Prefere jogar-se numa atitude que seria teatral, não fosse verdadeira, sentir os espinhos rasgando carne, as pedras entrando no corpo, o rosto espatifado contra o fim desconhecido. Precisa ir até o fundo.
[...]Não, não era amor, não foi amor. Tudo explodia num plano muito mais alto, muito mais intenso. Nos desvendávamos com a fúria dos que antecipadamente sabem que não vão conseguir jamais.
[...]Não, não era amor. Era terror.
[...] Não queria, desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteiro na queda para depois restar incompleto, destruído talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morto, mais indefinido -e seria preciso reestruturar verdades, seria preciso ir construindo tudo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou. Mas o dilaceramento foi só meu, como só meu foi o desespero. Que espécie de coisa o cigarro queimou, além dos cabelos? Sei que foi mais fundo, mais dentro, que nessa ignorada dimensão rompeu alguma coisa que estava em marcha. Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto.

[Inventário do Ir-remediável]





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