quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

“...porque não suportaria, sim, suportaria, suportarás, as pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, punhaladas revirando um talho quase fechado, cada palavra, cada acorde, cada cena, até a dor esgotar-se autofágica, consumida em si mesma, transformada em outra coisa que não saberia dizer qual era, porque não chegara lá ou sim, que chegar lá não passava disso, aqui passando a mão no rosto, nos cabelos, alguns brancos poucos... autopiedade nojenta, quase não havia mais tempo, embora pudesse ainda repetir there will be time, there will be time ou acaso não fui cúmplice dos meus? desses vindos da noite ou stars open among the lilies, tanta literatura andando pelo apartamento vazio, a vida, fosse o que fosse era agora, a vida era já, a vida era aqui, e o aqui e o já e o agora não passavam de uma vontade de chorar sem lágrimas, de vomitar sem náusea, de trepar sem sexo, tantos versos, tantos planos ficados para trás, só os dias rodando sem parar, o de ontem gerando o de amanhã, trazendo sempre o mesmo gosto de café e cigarros, tocou o peito, que talvez já tivesse começado a apodrecer, a coisa secreta...

Fazer-me de sentimentalóide, fingir que é demasiado doloroso escutar a musiquinha que retirei do fundo do baú [The Cure: “A letter to Elise” – na real estou morrendo de felicidade por ela existir]. Eu sou uma pseudo-sofredora porque como diz a comunidade “SOFRER É CHIC POR DEMAIS”.

E eu adoro.



... O cu, não é isso? No final das contas tudo se reduz a isso.”

Caio F. “Pela Noite” – Estranhos Estrangeiros.

[Blog é coisa de desocupado.]
 
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