quarta-feira, 17 de outubro de 2007





A minha ficção.



...Pois bem, era fim de tarde numa quinta-feira, Júlia dançava com seu objeto de luz, quando lembrou do artista. Já fazia meses, ela nem sentira transpor e foi quando se deu conta de que haveria de saber como passava o artista. Tomou o telefone e discou; do outro lado, ele atendeu e então ela disse:

- Como tem passado? Quanto tempo desde a última conversa!
- Quase bem, se não fosse...
- Fico feliz em saber que está quase tudo bem, o quase já é um bom começo. Pois bem, tenho que desligar, tenho muitos afazeres – Foi desta forma que ele, o artista foi abruptamente interrompido por ela.
- Espere! Por que tão breve? E as conversas intermináveis?
-Tenho mesmo que ir.

E assim ela desligou o telefone. Ela realmente tinha muitos afazeres, mas não os realizou. Deitou-se em sua cama, e assim permaneceu perdida em pensamentos, cercando o penduricalho com as mãos a fim de que ele parasse de dançar - contido, morto, imóvel. Porque tão breve?...Porque tão breve?...As conversas intermináveis...As conversas intermináveis..., as frases ecoavam em sua cabeça, desorientando, repentinamente, de súbito, contestando.
Cogitou muitas coisas, julgou algumas, supôs outras. A resposta era óbvia, fora breve porque tinha afazeres e pretendia realizá-los e as conversas seriam sempre intermináveis, caso desejasse que elas assim fossem. As respostas eram simples, o que ela não compreendia era porque mesmo tendo conhecimento delas ainda não se dava por satisfeita. Afinal, apenas não desejou uma conversa interminável porque tinha afazeres importantíssimos. Mas por que então, ao invés de realizar os afazeres, ela ficou prostrada na cama, pensando sem parar nas frases que ecoavam em sua cabeça? Permitia-se deitar e pensar, mas não podia permitir-se ter uma conversa interminável e deixar os afazeres de lado? Foi então que se deu conta...


...Tudo começou de repente – como sempre o é. No momento errado, com pontualidade máxima. Tempo é coisa que não existe, apenas junho. Não há que se falar em começo, meio, fim, muito menos em segundos, minutos, horas ou anos e talvez por este motivo ecoe a impressão de tudo ter acontecido exatamente no mesmo instante – e talvez tenha sido. Esta não é uma estória de amor – as relações não são mais do que subtis artifícios; trata-se de uma estória baseada em instantes dilacerados, tão efêmeros, quanto eternos que tampouco importam – o que realmente importa é o laço que os une, as pessoas que participaram e a forma como sobreviveram. É a magia e a beleza escondida por de trás da névoa...de algumas vidas descobertas, pelas mais diferentes razões, entrelaçadas por sumptuosas epifanias...


...Júlia estava desordenada como um compasso esquecido a muito - pleno de lacunas, mas disto nem ela sabia. Desprovida de si mesma, havia muita coisa desajeitada que ela não era capaz de observar. E sem perceber, concluiu que o amor era o que lhe faltava - as notas do compasso. Pois mal sabia que se tratava de um completo engano.


[PS: Vide entrada de 28/07 - "Verde, Azul, Todas as Cores..."]

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