terça-feira, 2 de outubro de 2007



Artista completo não? Alguém já teve acesso ao original de "The marriage of heaven and hell"? Belíssimo...assim como todas as ilustrações de Blake.

Mas não vim falar de Blake e sim de Wilde...dá-lhe mais trechos de "A alma do homem sob o socialismo"...


"Deve-se observar que o Individualismo não se apresenta ao homem com alguma enjoada cantilena sobre o dever, que significa tão-só-fazer o que os outros querem porque assim querem; ou alguma cantilena abominável sobre auto-sacrifício, que é tão-só uma sobrevivência da mutilação selvagem. De fato, ele não surge com nenhuma exigência ao homem. Surge do homem, inevitável e naturalmente. Este é o ponto a que tende todo desenvolvimento. É a diferenciação a que evoluem todos organismos. É a perfeição que, inerente a toda forma de vida, anima toda forma de vida. Assim, o Individualismo não exerce nenhuma coação sobre o homem. Diz-lhe, pelo contrário, que não permita que nenhuma coação se exerça sobre ele. Não tenta forçá-lo a ser bom. Sabe que ele é bom quando deixado em paz. O homem desenvolverá o Individualismo a partir de si mesmo, como o está agora desenvolvendo. Perguntar se o Individualismo é possível é como perguntar se é possível a Evolução. A Evolução é a lei da vida, e não há evolução senão rumo ao Individualismo. Onde essa tendência não se manifesta, trata-se de um caso de crescimento interrompido artificialmente, de doença ou de morte.
O Individualismo será natural e altruísta. Afirma-se que uma das conseqüências da descomunal tirania da autoridade é que as palavras, completamente desviadas de seu sentido próprio e verdadeiro, são usadas para expressar o anverso de sua exata significação. O que é verdadeiro para a Arte, é verdadeiro para a Vida. Hoje é costume chamar um homem de afetado se ele se veste como lhe aprazo Mas, ao fazê-lo, ele está agindo de uma maneira perfeitamente natural. A afetação, nesse caso, consistiria em se vestir conforme as opiniões do alheio, que, por serem a da maioria, provavelmente serão muito estúpidas. Ou então é costume chamar egoísta a um homem cuja maneira de viver lhe pareça a mais adequada para a expressão plena de sua individualidade; em verdade um homem cujo objetivo primordial na vida seja o aperfeiçoamento de si mesmo. Mas esta é a maneira como todos deveriam viver.
Egoísmo não significa viver como se deseja, mas sim pedir aos outros que vivam como se deseja. E altruísmo significa deixar a vida de outrem em paz, não interferir nela. O egoísta sempre visa criar em torno de si uniformidade absoluta. O altruísta reconhece satisfeito a diversidade, aceita-a, concorda com ela, desfruta-a. Não é egoísmo pensar por si mesmo. Um homem que não pensa por si mesmo, simplesmente não pensa. É demasiado egoísmo exigir que o próximo deva pensar da mesma forma e sustentar as mesmas opiniões. Por que deveria?
Se ele tem a faculdade de pensar, irá provavelmente pensar de modo diferente. Se não tem, é uma crueldade exigir-lhe pensamento de qualquer espécie. Uma rosa vermelha não é egoísta por querer ser uma rosa vermelha. Mas seria terrivelmente egoísta se quisesse que as demais flores do jardim fossem tanto rosas quanto vermelhas. Sob o Individualismo, as pessoas serão perfeitamente naturais e altruístas, conhecerão os significados dessas palavras e irão compreendê-los na vida, que tomará a forma da liberdade e da beleza. Tampouco os homens serão egoístas como são agora. O egotista é aquele que impõe exigências aos outros, e o Individualista não desejará tal coisa, pois não terá prazer nela. Quando o homem tiver compreendido o Individualismo, terá também compreendido a solidariedade e a praticará livre e espontaneamente. Até hoje dificilmente o homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade.
Toda solidariedade é pura, mas na dor tem sua forma menos pura. Está maculada pelo egotismo. Está inclinada a se tornar mórbida. Há nela um certo temor por nossa própria segurança. Temos medo de que nós próprios venhamos a ficar como o leproso ou o cego, e ninguém se importe conosco. Além do mais, tal solidariedade é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida em sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na beleza, na energia, na saúde e na liberdade. A solidariedade mais ampla é, naturalmente, a mais difícil: exige maior altruísmo. Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por um amigo, mas é preciso uma natureza muito superior - a natureza de um verdadeiro Individualista - para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo."


...O Prazer é a medida da natureza, seu sinal de aprovação. Quando um homem está feliz, ele está em harmonia consigo mesmo e com seu meio.

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