
Artista completo não? Alguém já teve acesso ao original de "The marriage of heaven and hell"? Belíssimo...assim como todas as ilustrações de Blake.
Mas não vim falar de Blake e sim de Wilde...dá-lhe mais trechos de "A alma do homem sob o socialismo"...
"Deve-se observar que o Individualismo não se apresenta ao homem com alguma enjoada cantilena sobre o dever, que significa tão-só-fazer o que os outros querem porque assim querem; ou alguma cantilena abominável sobre auto-sacrifício, que é tão-só uma sobrevivência da mutilação selvagem. De fato, ele não surge com nenhuma exigência ao homem. Surge do homem, inevitável e naturalmente. Este é o ponto a que tende todo desenvolvimento. É a diferenciação a que evoluem todos organismos. É a perfeição que, inerente a toda forma de vida, anima toda forma de vida. Assim, o Individualismo não exerce nenhuma coação sobre o homem. Diz-lhe, pelo contrário, que não permita que nenhuma coação se exerça sobre ele. Não tenta forçá-lo a ser bom. Sabe que ele é bom quando deixado em paz. O homem desenvolverá o Individualismo a partir de si mesmo, como o está agora desenvolvendo. Perguntar se o Individualismo é possível é como perguntar se é possível a Evolução. A Evolução é a lei da vida, e não há evolução senão rumo ao Individualismo. Onde essa tendência não se manifesta, trata-se de um caso de crescimento interrompido artificialmente, de doença ou de morte.
O Individualismo será natural e altruísta. Afirma-se que uma das conseqüências da descomunal tirania da autoridade é que as palavras, completamente desviadas de seu sentido próprio e verdadeiro, são usadas para expressar o anverso de sua exata significação. O que é verdadeiro para a Arte, é verdadeiro para a Vida. Hoje é costume chamar um homem de afetado se ele se veste como lhe aprazo Mas, ao fazê-lo, ele está agindo de uma maneira perfeitamente natural. A afetação, nesse caso, consistiria em se vestir conforme as opiniões do alheio, que, por serem a da maioria, provavelmente serão muito estúpidas. Ou então é costume chamar egoísta a um homem cuja maneira de viver lhe pareça a mais adequada para a expressão plena de sua individualidade; em verdade um homem cujo objetivo primordial na vida seja o aperfeiçoamento de si mesmo. Mas esta é a maneira como todos deveriam viver.
Egoísmo não significa viver como se deseja, mas sim pedir aos outros que vivam como se deseja. E altruísmo significa deixar a vida de outrem em paz, não interferir nela. O egoísta sempre visa criar em torno de si uniformidade absoluta. O altruísta reconhece satisfeito a diversidade, aceita-a, concorda com ela, desfruta-a. Não é egoísmo pensar por si mesmo. Um homem que não pensa por si mesmo, simplesmente não pensa. É demasiado egoísmo exigir que o próximo deva pensar da mesma forma e sustentar as mesmas opiniões. Por que deveria?
Se ele tem a faculdade de pensar, irá provavelmente pensar de modo diferente. Se não tem, é uma crueldade exigir-lhe pensamento de qualquer espécie. Uma rosa vermelha não é egoísta por querer ser uma rosa vermelha. Mas seria terrivelmente egoísta se quisesse que as demais flores do jardim fossem tanto rosas quanto vermelhas. Sob o Individualismo, as pessoas serão perfeitamente naturais e altruístas, conhecerão os significados dessas palavras e irão compreendê-los na vida, que tomará a forma da liberdade e da beleza. Tampouco os homens serão egoístas como são agora. O egotista é aquele que impõe exigências aos outros, e o Individualista não desejará tal coisa, pois não terá prazer nela. Quando o homem tiver compreendido o Individualismo, terá também compreendido a solidariedade e a praticará livre e espontaneamente. Até hoje dificilmente o homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade.
Toda solidariedade é pura, mas na dor tem sua forma menos pura. Está maculada pelo egotismo. Está inclinada a se tornar mórbida. Há nela um certo temor por nossa própria segurança. Temos medo de que nós próprios venhamos a ficar como o leproso ou o cego, e ninguém se importe conosco. Além do mais, tal solidariedade é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida em sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na beleza, na energia, na saúde e na liberdade. A solidariedade mais ampla é, naturalmente, a mais difícil: exige maior altruísmo. Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por um amigo, mas é preciso uma natureza muito superior - a natureza de um verdadeiro Individualista - para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo."
...O Prazer é a medida da natureza, seu sinal de aprovação. Quando um homem está feliz, ele está em harmonia consigo mesmo e com seu meio.
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