quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Cristo por Oscar Wilde.

É bem verdade que meus três escritores preferidos são Oscar Wilde, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, por motivos óbvios. E é nessa ordem. São meus preferidos obviamente porque me encontro neles; Clarice fica em último lugar porque não me encontro em todas as suas facetas, apesar de me encontrar em muitas delas.

Caio é gente. Caio viveu no mesmo cenário que eu, passou por muitas das minhas aflições, é um romântico! É um romântico que fala a minha língua! Se houvesse oportunidade, ele seria meu amigo e com ele passaria horas conversando na mesa de um buteco qualquer, fumando 3792847 cigarros.

Não vou cometer aqui o absurdo de dizer que me encontro com Oscar em sua genialidade, apesar dessa ser a sua maior qualidade. Me encontro com ele nos sentimentos e nos sentidos. Mas além dos sentimentos e dos sentidos, ele é meu preferido pela genialidade – para mim INCOMPARÁVEL a qualquer outro escritor. Ele mesmo se mistificou e tinha toda a razão: ELE REALMENTE ERA O REI DAS PALAVRAS. Era capaz de dizer tudo em uma frase ou em uma epígrafe e chocar diante de tanta imaginação e genialidade qualquer pessoa com um mínimo de humanismo. Aliás a imaginação era sua qualidade preferida entre os humanos – nesse ponto eu concordo com ele – a capacidade de imaginar o ser e os seus ideais – a capacidade de imaginação no geral, inclusive no sentido de compreensão, porque muitas e muitas vezes não conseguimos imaginar que as pessoas se encontram em situações diferentes da nossa, mas que deveríamos imaginar porque podemos passar por elas – apesar de sempre desejarmos ser diferentes de todo mundo. A capacidade de imaginar, diante de todo o nosso individualismo, nós, na situação do outro. E talvez – apenas sob o individualismo sejamos capazes de desenvolver tal qualidade. Individualismo parece uma palavra banal e simples, mas é muito difícil de ser explicada e só pode ser entendida diante da humildade – de aceitar quem quer que seja, a situação que seja, inclusive você mesmo e isso nada mais é do que respeitar o individualismo alheio e pra isso só sendo individualista. Enfim, como eu disse, é muito difícil explicar e esse nem é o principal, apesar de ser um dos assuntos tratados aqui hoje.

É que li de novo pela 37494 vez, “De Profundis” e sempre, SEMPRE choro na parte que ele fala de Jesus de Nazaré. São muitas páginas que eu não teria paciência de digitar, mas tentei passar o que acho de mais essencial.

Jesus de Nazaré é mesmo uma questão de óptica – ou de ignorância – não sei ao certo; A única coisa que sei é que a visão de Oscar Wilde sobre ele, em suas diversas obras corresponde exatamente ao que eu penso, mas que claro, eu jamais teria tamanha capacidade de vomitar com tanto brilhantismo.

Os parágrafos não estão na ordem certa em que foram escritos e muitos deles estão incompletos; ordenei-os da forma que achei mais conveniente para o que eu gostaria de passar;


E não há dúvida de que, se o seu lugar está entre os poetas, ele é o maior de todos os amantes. Ele percebeu que o amor era o primeiro segredo do mundo, o segredo que os homens sábios procuravam e que só através do amor era possível chegar ao coração do leproso ou aos pés de Deus.

E, acima de tudo, Cristo é o supremo individualista. A humildade como a aceitação artística de todas as formas de experiência é apenas um tipo de manifestação. O que Cristo procura sempre é a alma do homem. Ele a chama de “Reino de Deus” e a encontra em todos nós. Ele à compara às pequenas coisas, a uma sementinha, um punhado de levedo, uma pérola. Isto porque só podemos perceber a nossa alma se nos libertamos de todas as paixões estranhas, toda a cultura adquirida, todas as possessões externas, quer sejam elas boas ou más.

Cristo não foi apenas o supremo individualista, mas o primeiro individualista da História. Tentaram fazer dele um filantropo vulgar igual a tantos outros, ou coloca-lo ao lado dos sentimentais e dos espíritos não-científicos, como se tivesse sido um simples altruísta. Mas na verdade ele não era uma coisa nem outra. Sentia compaixão pelos pobres, por aqueles que viviam encarcerados nas prisões, pelos humildes, pelos miseráveis, mas tinha muito mais pena dos ricos, daqueles que perdem a liberdade, escravos das coisas materiais, dos que usam ricas vestes e vivem em casas dignas de reis. Para ele, riqueza e prazer pareciam tragédias bem maiores do que a pobreza e o sofrimento. E quanto ao altruísmo, quem melhor do que ele sabia que não é a vontade e sim a vocação que nos define e que é impossível colher uvas nos espinheiros ou figos nos cardos?

Sua doutrina não exigia que vivêssemos para os outros como um objetivo definido e consciente. Não era essa a sua característica básica. Quando ele nos diz: “Perdoa teus inimigos”, não está pensando no bem do inimigo mas no nosso próprio bem, porque o amor é mais belo que o ódio.[...]

Mas embora não tenha jamais dito aos homens “Vivam para os outros”, Cristo nos fez entender que não há a menor diferença entre a vida do outro e a nossa própria vida. Por esse meio, ele ampliou a personalidade do homem, dando-lhe as dimensões de um Titã. Desde a sua vinda, a história de cada indivíduo isolado é – ou pode vir a ser – a história do mundo.
Vejo uma conexão bem mais íntima e imediata entre a verdadeira vida de Cristo e a verdadeira vida do artista e sinto um imenso prazer ao pensar que muito antes que o sofrimento tivesse se apossado dos meus dias e me prendido à roda do suplício, eu já tinha escrito em “A alma do homem sob o socialismo” que aquele que vivesse uma vida semelhante à de Cristo deveria ser inteira e absolutamente fiel a si mesmo...

...E não é porque podemos perceber em Cristo aquela união da personalidade com a perfeição, que constitui a verdadeira diferença entre os movimentos clássicos e românticos da vida, mas a própria base de sua natureza era igual à da natureza do artista – uma imaginação intensa, semelhante a uma chama. Ele percebeu, em todos os níveis das relações humanas, aquela afinidade imaginativa que, ao nível da arte, é o único segredo da criação. Era capaz de entender a lepra do leproso, a escuridão do cego, a angústia dos que vivem apenas para o prazer, a estranha pobreza dos ricos [...] E se desejar uma frase pra ler durante a madrugada ou no meio da noite, que sirva tanto para os momentos de prazer quanto para os de sofrimento, escreva nas paredes de sua casa, com letras que o sol possa dourar e a lua pratear, a frase: “Tudo que acontece ao outro, acontece também comigo”.

Não há dúvida que o lugar de Cristo é mesmo junto aos poetas. Toda a sua concepção de humanidade brota diretamente da imaginação e só pode ser realizada através da imaginação. O que Deus era para os panteístas, o homem era para Cristo. Foi ele o primeiro a imaginar as várias raças como uma unidade. Antes dele havia deuses e homens, mas ao perceber através do misticismo da piedade que ambos haviam se encarnado nele, chamou a si mesmo de Filho de Deus ou do Homem, de acordo com seu estado de espírito.
Mais do que qualquer outro personagem da História, Cristo desperta em nós aquela inclinação pelo fantástico sempre atraída pelo romantismo. Ainda hoje, há para mim algo de quase inacreditável na idéia de um jovem camponês da Galiléia pudesse imaginar que seria capaz de carregar sobre os ombros o peso do mundo, de tudo que já havia acontecido e do que ainda estava por acontecer, dos pecados de Nero, César Bórgia [...], os sofrimentos de todos aqueles cujos nomes formam legiões e que habitam entre os túmulos, as nações oprimidas, as crianças operárias, os ladrões, os prisioneiros, os parias, os que permanecem calados diante da opressão e cujo silêncio só é ouvido por Deus – e que não apenas tivesse imaginado poder fazê-lo, mas que o conseguisse e de tal forma que agora todos os que entram em contato com sua personalidade, mesmo que talvez não se inclinem diante de seu altar, nem se ajoelhem aos pés do seu sacerdote, descobrem que, de alguma maneira, a fealdade os abandonou e a beleza que existe no seu próprio sofrimento lhes foi revelada.

***

...A maior parte das pessoas vive PARA ser amada e admirada, mas é PELO amor e pela admiração que devemos viver.

Compreendem a diferença? Se sim, ótimo, vocês sabem amar e vocês sabem ser individualistas. Se não, meus pêsames, vocês são uns desprovidos de imaginação, dependentes de seu próprio rancor e principalmente, desprovidos do individualismo e da compreensão do amor e da contemplação do belo, que compreende principalmente e muito além da felicidade, o sofrimento – juntamente com o amor, o que mais te acrescenta, a evolução do ser individualista, porque pobres de espírito também são aqueles que não enxergam a beleza do sofrimento – e sim, eu já fui pobre de espírito, mas assim como Jesus prega o arrependimento como salvação – NÃO POR DEUS OU POR ELE – mas por você mesmo, porque o arrependimento é uma forma de recomeço, são novos caminhos. Nada é irreversível. Portanto, tenho todo o poder de me arrepender e de reverter o que eu quiser, inclusive a minha anterior pobreza de espírito.
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