"Que seja doce."
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Eu não consigo parar de ler Caio Fernando Abreu.
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É impressionante a minha empatia. A forma como ele descreve São Paulo, a avenida Doutor Arnaldo, com o Hospital das Clínicas na frente do cemitério, cenário este que vivi durante anos, trabalhava numa rua que dava pra a avenida que desembocava no estádio do Pacaembú. Todo dia saía do Morumbi às 07:30, pegava o bus até a Avenida Doutor Arnaldo, descia na frente do Hospital das Clínicas. Antes passava pela Avenida Francisco Morato, aquele horror, depois pela Teodoro Sampaio, ficava namorando as guitarras nas vitrines, às vezes tinha criança no ônibus que ficava chorando o tempo todo, um trânsito do caralho, uma hora e meia pra chegar no trampo às 09:00, pontualmente.
Meu pai passou os últimos meses de vida no Hospital das Clínicas, aquele que fica na frente do cemitério do Araçá, onde ele jaz, morto e sepultado. Todo dia eu passava lá na frente, pra ir ao trabalho, mas durante todos os meses que ele passou lá, eu lá entrei poucas vezes e não fui no seu velório nem no enterro. Chamem de culpa, chamem do que quiserem, chamem até de medo. Sim, me dava medo, muito medo. Meu pai sempre foi uma pessoa tão ativa, tão especial, era INSUPORTÁVEL pra mim entrar lá e ver ele impotente, definhando, magro, cheio de tubos e canos entrando em todas as veias possíveis...e mesmo assim, quando eu raramente aparecia, ele me recebia com um sorriso e dois dias antes dele morrer ele teve que amputar uma perna e quando soube disso - eu não estava lá - mas minha mãe estava e ela ficou mal, mas ele sorriu, apesar de estar tremendo e disse que tava tudo bem, que ia ficar tudo bem. Não estava tudo bem e nem ficou tudo bem. Mas ele sorriu, mesmo que estivesse tremendo, horrorizado de medo, apavorado - até o fim.
Eu não fui no enterro, nem em velório, eu fiquei em casa, dormi abraçada com a minha sobrinha, depois de chorar o dia e a noite inteira - na realidade chegou uma hora que nem chorar mais eu conseguia. Foi num domingo. Na segunda não fui trabalhar, minha chefe ligou dizendo que eu não precisava ir trabalhar naquela semana. Mas eu fui. Na terça eu peguei o ônibus exatamente ás 07:30 da manhã, graças a Deus não tinha nenhuma criança chorando durante o percurso, me lembro de descer no ponto de sempre, de atravessar o Hospital das Clínicas onde ele já não tava mais, de olhar pro lado da frente e ver o cemitério onde agora ele estava - tem um monte de barracas de flores na frente. Continuei seguindo a avenida, até virar á esquerda, depois do cemitério e descer a rua que dava pro estádio, ia seguindo pro trampo, como sempre e aquele foi o dia que me senti mais impotente e desprotegida em toda a minha vida. É um dia e uma sensação que eu não vou esquecer nunca! Me lembro de ter pensado [engraçados os pensamentos] que ele nunca mais ia me buscar e me levar no trabalho quando tivesse greve de ônibus, que ele nunca mais ia me dar dinheiro quando o meu tivesse acabado. Enfim, que ele nunca mais ia estar lá pra me proteger, pra mimar a princesinha dele, sempre com um sorriso no rosto.
Meu pai trabalhou a vida inteira, desde pequeno. Trabalhou muito, viveu pra poder dar o melhor pras pessoas que ele amava. Nunca viajou pro exterior, apesar de que eu, minhas irmãs e minha mãe o fizemos várias vezes - ele nunca quis ir, ele sempre quis trabalhar, porque era disso que ele gostava. Ele gostava de trabalhar, de tomar um copo de whiskey quando chegava em casa, de comer pizza as sextas, de fumar Parliament, de pijamas, de sair do trabalho na hora do almoço pra me levar pro colégio, só pra poder ter meia hora de diálogo ou de silêncio comigo. E depois fazia o mesmo de manhã, quando passei a estudar de manhã e fazia o mesmo na faculdade, também de manhã. Cara, ele se vestia de mulher nos churrascos aqui em casa e minha mãe ficava muito puta da vida! Dizia que dava nojo - acho que eles não trepavam nesses dias HAHAHAHAHA.
Outro dia minha irmã trouxe uns vídeos - que eu não consegui assistir muito tempo, dele vivinho da silva - da época em que minha família era completa e harmônica e tudo era perfeito. Até esse dia eu tinha bloquiado completamente a morte de meu pai da minha mente, sério eu mal me lembrava mesmo - bloqueio total. Mas esses vídeos...tudo veio à tona. Mas apesar de eu ter fugido de ver meu pai mais vivo do que nunca nos vídeos assim como fugi de ver ele morrendo e morto, foi bom, foi muito bom saber que a melhor decisão que eu já tomei foi não ver ele definhando e morto, porque eu gosto de lembrar dele daquele jeito - VIVO!
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Sei lá, é tudo tão injusto e incompreensível, ele tava tão bem a vida toda, tão altivo e de repente acabando com aquela doença maldita, que fez ele sofrer que nem um cão vagabundo. Ele não merecia isso, ele não merecia ter que amputar uma perna depois de tudo que já tinha passado dois dias antes de morrer [Porque isso, pra quê?] - ele merecia ir na minha formatura, ele merecia encher a cara de whiskey, ele merecia ir travestido se quisesse - mas com certeza ele usaria um dos ternos impecáveis. Ele merecia viver muito mais e morrer de enfarte fulminante bêbado.
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Puta que pariu, que merda de vida injusta. E até hoje não fui levar flores no túmulo dele. Nem sei se quero ver o túmulo dele.
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Fui.
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