Lá vem o acaso me perseguir novamente!
Já começo avisando que isso vai ficar extenso. E que o acaso fica pro fim.
Bom, faz duas semanas mais ou menos que pessoas de toda espécie, inclusive pessoas que tinha acabado de conhecer vinham me indicar essa leitura do nada...”A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera.
Confesso que já estava bastante inclinada a ler, mas estou banida da biblioteca até o meio de outubro :(. Lembrem-se de devolver os livros no prazo, bibliotecários por mais simpáticos que possam parecer às vezes, dificilmente transgridem às regras e abrem exceções; por mais que você se considere de certa forma amigo dessas pessoas, por mais que praticamente só você consuma aquele lugar, eles não são indulgentes! É, eu estou um pouco sentida com a pena que me foi imposta, mas tudo bem.
As pessoas vinham me falar desse livro pelos mais variados motivos; alguns, muitos deles pela crítica à teoria do Eterno Retorno de Nietzsche; outros pela abordagem do sexo aos olhos de um médico; outros pela abordagem do amor e traição; outros até pela abordagem bíblica e até por causa da merda e do comunismo.
Mas hoje foi o basta. Eu tava conversando com um dos meus grandes amigos, Léo e eu tava falando de Caio Fernando Abreu, que ele não conhecia ainda. Léo, assim como eu é grande devoto de Oscar Wilde e estávamos comentando sobre como gays escrevem de forma única! Caio tem uma semelhança com Wilde; ambos foram heterossexuais até que em algum momento de suas vidas se encontraram homossexuais. Talvez fossem bissexuais, bom, isso não importa. Talvez, assim como Angelina Jolie, para eles o que importava era a alma das pessoas e não o sexo. A questão é que no meio desse assunto NADA A VER, já que o autor em questão pelo que eu saiba não era homossexual, veio o Léo me dizer sobre “A insustentável leveza do ser”.
Aí não me agüentei; DETESTO ebooks. DETESTO ler na tela do computador, detesto mesmo e esse livro tem 300 páginas, mas eu baixei e li.
Bom, por onde vou começar?
Vou começar dizendo que chorei e olha que foram pouquíssimos os livros ou textos ou crônicas que me peguei chorando. Na verdade isso acontece com os escritos carcerários do Wilde e com muitos textos do Caio.
O livro é realmente fantástico; como qualquer outro “retrata” o autor ou uma catarse, ou seja, suas experiências ou a falta dela, um desejo de ser colocado em papel aquilo que se foi é e será, inclusive o que gostaria ou não de ser, enfim, isso não importa. Um escrito é sempre um vomitare e uma forma de espelhamento, acredito eu. Qualquer coisa diferente disso é qualquer coisa de influência ou corrupção.
Diante disso, o cenário não poderia ser diferente de sua vida; O comunismo Tcheco, a punição de seu personagem principal por de certa forma ferir o “movimento”, sempre criticando o comunismo (muito interessante a abordagem) e também a invasão russa e até o exílio de seu personagem, como realmente aconteceu com ele. Mas não se trata somente de um livro político; é antes um livro psicológico e porque não dizer também, filosófico?
Aliás numa crítica aos ativistas comunistas arrependidos, ele diz:
“Não é precisamente no seu: Eu não sabia! Eu acreditei! Que reside sua falta irreparável?
Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.
Tomas ouvia o grito dos comunistas que defendiam sua pureza de alma, e dizia a si próprio: por causa de sua inconsciência o pais talvez tenha perdido séculos de liberdade. Mesmo assim vocês gritam que se sentem inocentes? Como podem ainda olhar em torno de si mesmos? Como?! Não estão espantados? Vocês não enxergam? Se tivessem olhos deveriam furá-los e deixar Tebas!”
Essa crítica é publicada e então Tomas é condenado pela sociedade, mas num momento após recebe uma boa crítica de um jornalista:
“-Há uma coisa formidável no seu artigo: a recusa do compromisso. Essa capacidade que estamos perdendo de distinguir o bem e o mal. Não sabemos mais o que é sentir-se culpado. Os comunistas acharam uma boa desculpa: Stalin os enganou. O assassino se desculpa dizendo que a mãe não o amava e por isso ele se sentia frustrado. E de repente você afirma: não existe nenhuma justificativa. Ninguém, mais do que Édipo, tinha a alma e a consciência inocentes. No entanto, ele próprio se puniu quando viu o que fizera.”
O livro começa já com a crítica à teoria do “Eterno Retorno” de Nietzsche que se confirma até o fim do livro. E por falar em Nietzsche, quase não acreditei! Juro, quase não acreditei quando li aquilo. Postei aqui há algum tempo algo sobre um livro que falava de Nietzsche e que eu tinha achado a abordagem extremamente interessante, por abordá-lo de uma forma muito parecida com a que eu o vejo, dócil. Um lado de Nietzsche que os mais superficiais ou talvez desinteressados não consigam enxergar; Nesse livro que eu li, me peguei de novo com a história do famoso abraço dele com o cavalo, a fragilidade tão dócil que Nietzsche desabrocha nesse momento da vida dele.
Bom, como eu ia dizendo, não acreditei quando li. Ele escreveu exatamente sobre isso! Assim dizia no livro:
“Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços.
Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes [ écat!]. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. É este Nietzsche que amo...”
É, é este Nietzsche que eu amo também.
Mas o livro também fala sobre outras coisas. Por exemplo, como a traição, a sexualidade e o amor.
“Tomas diz a si mesmo: associar o amor à sexualidade é uma das idéias mais bizarras do Criador.”
Tomas, sempre fora infiel ao grande amor de sua vida, sexualmente falando. É uma abordagem engraçada, na qual concordo, que sexo ou traição nada tem a ver com amor. Você pode trepar com inúmeras pessoas e isso não faz com que seu amor diminua por aquele à quem ama. Isso é fato. Não estou aqui defendendo a “traição”, nem condenando, só estou dizendo que realmente uma coisa nada tem a ver com a outra.
Algumas outras frases de impacto no livro sobre o amor, como “O amor começa por uma metáfora.”. Ou “...os amores são como os impérios: desaparecendo a idéia sobre a qual foram construídos, morrem junto com ela.”
É, o amor começa por uma metáfora, acredito eu, também. Qualquer coisa de empatia ou afeição que remeta você a qualquer coisa que você aprecie muito. E realmente “morrem” se o tal simbolismo acaba. Claro, estou falando do amor homem/mulher, na concepção geral da coisa, porque na minha concepção geral de amor, o amor não morre jamais; apenas o que existia de apaixonante entre um homem e uma mulher é capaz de morrer, junto com a base ou o simbolismo que deu origem à tal sentimento.
Eu falei que isso ia ser extenso, ainda tenho tanto a comentar!
Por exemplo, profissão. Tem uma parte em que ele fala algo como, os franceses podem ser todos diferentes, mas os médicos ou atores sempre terão algo em comum; algo dentro de si que já vêm implícito, uma espécie de pré-destinação à determinada função. O personagem era médico e se angustiava quando por exemplo, não conseguia salvar uma vida. Num momento seguinte abandonou a profissão de uma vida toda para lavar vidros e então não mais sentia o peso do trabalho porque simplesmente não pensava sobre ele, não tinha amor por ele.
Diz também sobre o amor e a relação entre as pessoas e os animais:
“É um amor desinteressado: Tereza não pretende nada de Karenin. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua simples presença.
Mais uma coisa: Tereza aceitou Karenin tal qual é, não procurou torná-la sua imagem, aceitou de saída seu universo de cachorra, não desejou confiscar nada dela, não sente ciúmes de suas tendências secretas. Se a educou, não foi para mudá-la (como um homem quer mudar sua mulher e uma mulher seu homem), mas apenas para ensinar-lhe uma linguagem elementar que lhes facilitasse a convivência e a compreensão. E mais, seu amor ao animal é um amor espontâneo, não é forçado por ninguém."
"Se Karenin fosse um ser humano e não um animal, certamente já teria dito a Tereza, há muito tempo: Escuta, não acho graça de todos os dias ter que levar um croissant na boca. Não poderia descobrir uma brincadeira diferente? Essa frase contém toda a condenação do homem. O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.
Sim, a felicidade é o desejo da repetição, pensa Tereza.”
Os animais de estimação não são mesmo fascinantes?
Essa última frase de Tereza é realmente algo que vai me fazer ficar que nem uma retardada pensando durante sei lá quanto tempo, ela contradiz tudo que eu penso e ao mesmo tempo é tão coerente! Mas ainda não vou dizer nada porque ainda estou pensando sobre ela.
Sobre o relacionamento com os animais e a comparação com os relacionamentos humanos, realmente, depois de ler esse livro estou com fortes tendências vegetarianas e valorizando os animais de uma forma tão absurda que me choca. Não que não os valorizasse antes, mas agora é diferente. Qualquer discurso vegetariano que eu já tenha escutado na vida nunca me comoveu como as coisas que li nesse livro sobre os animais. E o livro não fala só sobre uma cachorrinha de estimação, fala também sobre vacas, ovelhas e porcos e tudo mais, enfim, vou passar um bom tempo sem comer carne de qualquer espécie com certeza hahaaha.
Tem até uma frase no livro “bem eu”, que como Oscar Wilde e o peixe morre pela boca HAHAAHAHAH, diz assim: “será melhor gritar e precipitar seu próprio fim, ou calar-se e barganhar uma agonia mais lenta?”
Eu sempre preferi gritar e assassinar tudo logo de uma vez do que viver no silêncio do não saber e da falta de algum tipo de resposta.
Enfim, eu poderia citar aqui inúmeros trechos e dar o meu parecer, mas aí vai ser outro livro, então fica assim e como prometido, só vou dizer mais uma coisa. Vou dizer sobre o acaso, um tema definitivamente MUITO abordado neste livro! Exatamente o que eu penso, como o acaso te prende às mais diversas situações, a beleza dele, as escolhas diante dele. Enfim, me encontrei total. Lambuzei-me.
Recomendo.
E “desde então, ela sabe que a beleza é um mundo traído. Só é possível encontrá-la quando seus perseguidores a esquecem por engano em algum lugar. A beleza está escondida atrás da decoração de um desfile de 1º de maio. Para encontrá-la, é preciso rasgar a tela do cenário.”
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